Medição de pH em etanol combustível: por que se mede pHe e não pH
Gerar PDFMeio não aquoso, potencial de junção líquida e a definição operacional da escala
Em etanol combustível não se mede pH, mede-se pHe. A distinção não é de nomenclatura: a escala de pH é definida em meio aquoso, e transportá-la para um meio predominantemente alcoólico não tem significado termodinâmico. O resultado é operacional, definido pelo método.
A escala de pH é ancorada em soluções tampão aquosas de valor atribuído por convenção. Toda a rastreabilidade da medição depende dessa âncora. Ao medir uma amostra que é majoritariamente etanol, o meio muda de forma que invalida a transferência direta da escala.
O que muda em meio alcoólico
- A constante dielétrica do etanol é bem menor que a da água, o que reduz a dissociação dos eletrólitos e altera os coeficientes de atividade em relação ao meio aquoso.
- O produto de autoprotólise do solvente é diferente do da água, de modo que a escala de neutralidade não fica em 7.
- O potencial de junção líquida entre o eletrólito aquoso do eletrodo de referência e a amostra alcoólica passa a ser significativo e pouco reprodutível, e entra direto no resultado.
Por essas razões, o valor obtido não é comparável a um pH aquoso e recebe designação própria, pHe, com valor definido pelo procedimento de medição adotado.
pHe é uma grandeza operacional: o número só tem significado acompanhado do método que o produziu. Comparar um pHe obtido por um método com o de outro, ou com um pH aquoso, não é válido.
Consequências para a prática de laboratório
- A calibração precisa usar padrões próprios para a escala de pHe, em meio compatível, e não tampões aquosos convencionais.
- O eletrodo deve ser adequado a meio não aquoso. Eletrodos de junção cerâmica simples tendem a apresentar potencial de junção instável nessas amostras.
- A temperatura deve ser controlada e registrada: além do efeito sobre a inclinação de Nernst, o próprio equilíbrio no meio alcoólico é sensível à temperatura.
- O tempo de resposta é maior que em meio aquoso, e a leitura precisa de critério de estabilização explícito para ser reprodutível.
Por que isso importa comercialmente no Brasil
O etanol combustível é produto de especificação controlada, e a acidez é um dos parâmetros de qualidade acompanhados na cadeia, da usina à distribuição. Um resultado de pHe obtido com eletrodo inadequado, ou com padrões aquosos, produz número que parece plausível e não é comparável, o que é a pior categoria de erro analítico: o que não se denuncia.
A escala do etanol não termina em 14
O comprimento da escala de pH não é uma escolha, é uma propriedade do solvente: ele é dado pela constante de autoprotólise, a reação em que o próprio solvente doa e recebe próton. É a IUPAC quem fixa esse critério, e ele vale para qualquer meio anfiprótico.
| Solvente | Produto iônico | Comprimento da escala | Ponto neutro |
|---|---|---|---|
| Água | 10⁻¹⁴ | 0 a 14 | 7 |
| Etanol | 10⁻¹⁹ | 0 a 19 | 9,5 |
| Metanol | 10⁻¹⁶,⁷ | 0 a 16,7 | 8,35 |
| Ácido acético | 10⁻¹³ | 0 a 13 | 6,5 |
A leitura prática disso: em etanol a faixa vai a cerca de 19, e a neutralidade fica perto de 9,5, não em 7. Um número que na água seria francamente alcalino é, na escala do solvente, o centro.
Não conclua daí que um etanol com pHe 6,5 é ácido em relação a 9,5. O pHe que o instrumento reporta é uma escala OPERACIONAL, definida pela ASTM D6423 e calibrada com tampões aquosos, e não a escala termodinâmica do etanol puro. As duas convivem: a primeira é a que a norma exige e o mercado usa; a segunda explica por que a norma adverte que pHe não se compara a pH aquoso. Compare pHe com pHe, sempre pelo mesmo método.
Hidratado e anidro pedem eletrodos diferentes
Etanol hidratado ainda tem água suficiente para uma junção convencional funcionar: o eletrodo clássico de etanol, com referência Ag/AgCl, junção cerâmica e eletrólito de LiCl 3M, atende bem. É o caso do HC400E, que na prática substitui o eletrodo de etanol de mercado com a mesma geometria.
Etanol anidro é outro problema. Com água praticamente ausente, a junção cerâmica seca e a referência perde contato iônico estável, e a leitura passa a derivar sem que nada na amostra tenha mudado. A saída é uma junção de fluxo livre, do tipo Sure-Flow, que se renova a cada medição, combinada com uma referência que tolere o meio. Na nossa linha, o único eletrodo que mede pHe em etanol ANIDRO é o HC-EpH-400ERS-LiCl-12x120, que soma a referência ROSS à junção Sure-Flow com eletrólito de LiCl 3M.
Referência ROSS em eletrodo de etanol é construção exclusiva da Hydrocore. Se o seu procedimento envolve etanol anidro, confirme a construção do eletrodo antes de comprar: junção cerâmica não sustenta a leitura nesse meio, por melhor que seja o resto do conjunto.
Perguntas frequentes
- Posso usar meu eletrodo de pH comum no etanol?
- Pode obter um número, mas ele tende a ser instável e pouco reprodutível por causa do potencial de junção líquida. Para resultado defensável, use eletrodo apropriado a meio não aquoso e padrões da escala de pHe.
- Por que a neutralidade não é 7 no etanol?
- Porque o valor neutro decorre da autoprotólise do solvente, e a do etanol é diferente da água. A referência de 7 é uma propriedade da água, não uma constante universal.
- pHe e pH podem ser comparados?
- Não. São escalas distintas, ancoradas em meios distintos. Comparar os dois números não tem significado físico-químico.
- Preciso de padrões específicos?
- Sim. Calibrar em tampão aquoso e medir em etanol transfere para o resultado o erro de junção e o de escala, sem que isso apareça na leitura.
Referências
- INTERNATIONAL UNION OF PURE AND APPLIED CHEMISTRY IUPAC Compendium of Analytical Nomenclature, 3.5: Practical measurement of pH in nonaqueous and mixed solvents. 1997. fixa que o comprimento normal da escala de pH em cada solvente é determinado pela constante de autoprotólise.
- AMERICAN SOCIETY FOR TESTING AND MATERIALS ASTM D6423: Standard Test Method for Determination of pHe of Denatured Fuel Ethanol and Ethanol Fuel Blends. 20a 2020. define o pHe e adverte que o valor não é diretamente comparável ao pH aquoso.
- ATKINS, P.; DE PAULA, J. Physical Chemistry. 11. ed. Oxford University Press, 2018. Cap. 5 e 6, soluções de eletrólitos e eletroquímica de equilíbrio.
- LEVINE, I. N. Physical Chemistry. 6. ed. McGraw-Hill, 2009. Cap. 10 e 13, soluções de eletrólitos e células eletroquímicas.
- BUCK, R. P. et al. Measurement of pH. Definition, standards, and procedures (IUPAC Recommendations 2002). Pure and Applied Chemistry, 2002. v. 74, n. 11, p. 2169-2200.
- HARRIS, D. C. Quantitative Chemical Analysis. 9. ed. W. H. Freeman, 2016. Cap. 14, Electrodes and Potentiometry.
- BARD, A. J.; FAULKNER, L. R. Electrochemical Methods: Fundamentals and Applications. 2. ed. Wiley, 2001.
O que este texto ainda não afirma
- A norma brasileira aplicável e a revisão em vigor ainda não estão citadas nominalmente aqui. Use este texto como orientação de método e confirme a norma vigente antes de referenciá-la no seu procedimento.
- Os limites de especificação do etanol combustível não estão citados aqui, e a norma brasileira aplicável ainda não é citada nominalmente; ambos dependem da resolução vigente da agência reguladora, que deve ser conferida na fonte.
- Esta página não traz os limites de especificação do etanol combustível. Eles dependem da resolução vigente da agência reguladora, que deve ser consultada na fonte antes de qualquer decisão de conformidade.
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