Condutividade em água ultrapura: por que o número não para de subir
Gerar PDF0,055 µS/cm, absorção de CO₂ e o que muda na prática de medição
Água ultrapura é o caso em que quase tudo o que funciona na medição comum deixa de funcionar. O valor teórico é 0,055 µS/cm a 25 °C, e basta contato com o ar para a leitura subir. Medir bem exige célula adequada, fluxo e compensação não linear.
A água pura não é isolante: ela se autoioniza, e essa ionização própria estabelece um piso de condutividade. A 25 °C esse piso é de aproximadamente 0,055 µS/cm, o que corresponde a resistividade de 18,2 MΩ·cm, valor que a indústria usa como sinônimo de água ultrapura.
Por que a leitura sobe sozinha
O dióxido de carbono do ar dissolve na água e forma ácido carbônico, que se ioniza e aumenta a condutividade. O processo é rápido e não precisa de contato prolongado: uma amostra coletada em béquer aberto já começa a mudar enquanto o operador prepara a medição.
- Medir em linha, com célula de fluxo, em vez de coletar amostra. Em água ultrapura, a coleta é a principal fonte de erro.
- Se a coleta for inevitável, minimizar a superfície exposta e o tempo entre coleta e leitura, e registrar os dois.
- Usar célula de constante baixa. A menor da linha Hydrocore é K = 0,1 cm⁻¹, que é a indicada para essa faixa.
Uma leitura de água ultrapura que sobe continuamente durante a medição raramente indica defeito do instrumento. Na maioria das vezes é a amostra absorvendo CO₂ em tempo real, e o que o instrumento está fazendo é justamente o seu trabalho.
Compensação de temperatura deixa de ser linear
Na faixa comum, corrigir a condutividade com coeficiente linear de cerca de 2 %/°C é boa aproximação. Em água de altíssima pureza isso deixa de valer, porque a contribuição da autoionização da água tem dependência térmica própria, diferente da dos sais dissolvidos.
Por isso instrumentos voltados a água ultrapura oferecem função de compensação específica, e alguns permitem desligar a compensação e reportar o valor bruto com a temperatura, que é a alternativa mais honesta quando a função apropriada não está disponível.
O que isso significa na escolha do equipamento
Resolução importa mais que faixa. Um instrumento que resolve 0,01 µS/cm distingue 0,055 de 0,075, o que em água ultrapura é a diferença entre conforme e não conforme. Um que resolve 1 µS/cm mostra zero nos dois casos.
Na Série M, o M2 resolve 0,1 µS/cm e os modelos a partir do M4 resolvem 0,01 µS/cm. Para trabalho em água ultrapura, portanto, a escolha começa no M4.
A célula também precisa ser compatível: constante alta em água pura entrega condutância tão baixa que o sinal se perde no ruído do próprio instrumento.
Perguntas frequentes
- Por que minha água purificada nunca dá 0,055 µS/cm?
- Porque esse é o valor teórico da água pura isolada do ar. Qualquer contato com a atmosfera dissolve CO₂ e eleva a leitura. Em prática, mede-se em linha para chegar perto.
- Resistividade e condutividade são a mesma coisa?
- São o inverso uma da outra. 18,2 MΩ·cm corresponde a 0,055 µS/cm. A indústria de água ultrapura costuma usar resistividade porque os números ficam mais legíveis.
- Posso usar minha célula K = 1,0 em água ultrapura?
- Vai medir, mas com pouca resolução relativa. Para essa faixa use K = 0,1, que é a menor constante da linha Hydrocore e entrega condutância maior e leitura mais estável.
- Qual medidor Hydrocore atende água ultrapura?
- A partir do M4, que resolve 0,01 µS/cm. O M2 resolve 0,1 µS/cm, o que é insuficiente para distinguir valores na faixa de fração de microsiemens.
- Devo compensar a temperatura?
- Se o instrumento tiver função específica para água ultrapura, sim. Se só tiver a linear comum, considere reportar o valor bruto com a temperatura, deixando claro que não está normalizado.
Referências
- SKOOG, D. A.; WEST, D. M.; HOLLER, F. J.; CROUCH, S. R. Fundamentals of Analytical Chemistry. 9. ed. Brooks/Cole, 2014. Cap. 21, Potentiometry.
- ATKINS, P.; DE PAULA, J. Physical Chemistry. 11. ed. Oxford University Press, 2018. Cap. 5 e 6, soluções de eletrólitos e eletroquímica de equilíbrio.
- LEVINE, I. N. Physical Chemistry. 6. ed. McGraw-Hill, 2009. Cap. 10 e 13, soluções de eletrólitos e células eletroquímicas.
- MENDHAM, J.; DENNEY, R. C.; BARNES, J. D.; THOMAS, M. J. K. Vogel's Textbook of Quantitative Chemical Analysis. 6. ed. Prentice Hall, 2000.
O que este texto ainda não afirma
- A célula de fluxo está no roteiro de produto e ainda não está disponível. Até lá, a medição em água ultrapura é feita por imersão, com as cautelas descritas acima.
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