Condutividade, condutância e constante de célula
Gerar PDFO que a célula realmente mede, e por que calibrar é determinar o K
A célula não mede condutividade: mede condutância, que depende da geometria dos eletrodos. A constante de célula é o fator que converte uma na outra, e calibrar um condutivímetro é determinar esse fator com um padrão rastreável.
Aplicando uma tensão alternada entre dois eletrodos imersos e medindo a corrente resultante, obtém-se a condutância G, em siemens. Esse valor depende de dois fatores: da amostra, que é o que se quer conhecer, e da geometria da célula, que é acidental.
A constante de célula é, na forma ideal, a razão entre a distância dos eletrodos e a área efetiva deles:
Na prática o valor real difere do geométrico, porque o campo elétrico não fica confinado entre as placas. Por isso o K de trabalho é determinado experimentalmente, medindo um padrão de condutividade conhecida. É exatamente isso que acontece quando se calibra um condutivímetro.
Por que existe mais de um K
Uma célula com K baixo tem eletrodos próximos e área grande, o que dá condutância alta e boa resolução em amostras pouco condutoras. Uma célula com K alto faz o oposto, e permite medir soluções concentradas sem saturar o instrumento.
| Constante | Faixa em que rende melhor | Uso típico |
|---|---|---|
| K = 0,1 cm⁻¹ | condutividade baixa | água purificada, água de caldeira, condensado |
| K = 1,0 cm⁻¹ | faixa intermediária, uso geral | água potável, efluente, laboratório |
| K = 10 cm⁻¹ | condutividade alta | salmoura, banho de processo, água do mar |
Calibrar uma célula K = 0,1 com padrão de 111,8 mS/cm não converge, e calibrar uma K = 10 em 14,7 µS/cm também não. O padrão precisa cair na faixa em que aquela geometria trabalha bem. Errar isso é a causa mais comum de calibração que não fecha.
Padrões de KCl
Os padrões de condutividade são soluções de cloreto de potássio de concentração definida, cujos valores a 25 °C são tabelados há décadas e servem de âncora para a grandeza.
| Concentração de KCl | Condutividade a 25 °C |
|---|---|
| 0,001 mol/L | 147 µS/cm |
| 0,01 mol/L | 1413 µS/cm |
| 0,1 mol/L | 12,88 mS/cm |
| 1 mol/L | 111,8 mS/cm |
Erros que a geometria explica
- Bolha presa entre os eletrodos reduz a área efetiva, o que aumenta o K real e faz a leitura sair baixa. É a falha mais frequente e some agitando a célula.
- Depósito ou filme na superfície altera a área e desloca o K, o que aparece como deriva lenta ao longo de semanas.
- Medir em recipiente estreito demais distorce o campo elétrico e muda o K efetivo. A célula precisa de folga em volta.
Perguntas frequentes
- Posso usar qualquer padrão para calibrar qualquer célula?
- Não. O padrão precisa estar na faixa de trabalho da constante de célula. K = 0,1 pede padrão de baixa condutividade; K = 10 pede padrão alto.
- Minha leitura está baixa demais. O que verifico primeiro?
- Bolha entre os eletrodos. É a causa mais comum, e resolve agitando a célula ou reintroduzindo com inclinação.
- Preciso calibrar em quantos pontos?
- Um ponto na faixa de trabalho determina o K. Pontos adicionais servem para verificar linearidade quando a faixa de uso é ampla.
- A constante de célula muda com o tempo?
- O valor geométrico não, mas o efetivo sim, por depósito na superfície. É por isso que se recalibra periodicamente em vez de confiar no K de fábrica para sempre.
Referências
- SKOOG, D. A.; WEST, D. M.; HOLLER, F. J.; CROUCH, S. R. Fundamentals of Analytical Chemistry. 9. ed. Brooks/Cole, 2014. Cap. 21, Potentiometry.
- ATKINS, P.; DE PAULA, J. Physical Chemistry. 11. ed. Oxford University Press, 2018. Cap. 5 e 6, soluções de eletrólitos e eletroquímica de equilíbrio.
- LEVINE, I. N. Physical Chemistry. 6. ed. McGraw-Hill, 2009. Cap. 10 e 13, soluções de eletrólitos e células eletroquímicas.
- MENDHAM, J.; DENNEY, R. C.; BARNES, J. D.; THOMAS, M. J. K. Vogel's Textbook of Quantitative Chemical Analysis. 6. ed. Prentice Hall, 2000.
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